
...Monica Horta, astróloga, olha meu céu e diz: "você vai precisar falar de morte"... mas não quero. Nem sei o que dizer, e detecto até um certo medo, resquício infantil de um jeito mágico: se eu não pensar, não existe...Mas tem dias assim estranhos, nos quais cabem anos, décadas, e todo o sofrimento do mundo! Em dias assim você se pega flertando com a morte, ensaiando aproximações...Não consigo ainda acreditar que a gente tem algum controle sobre as coisas que nos acontecem, embora a idéia ande cada vez mais popular. No entanto, cheguei a conclusão de que, embora a gente não consiga escolher a própria morte, dá para escolher o tipo de enterro que vamos ter. Parece pouco? Pode ser, mas no quesito morte, não temos tantas alternativas assim de exercitar nossa arrogância, melhor nos concentrarmos nas miudezas...Além disso, poder escolher o próprio enterro diz muito da pessoa que decidimos ser. Queria ter um enterro assim, feito esse, num dia claro, inundado de sol, mas que uma brisa leve sacudisse as folhas das árvores. Queria que as pessoas fossem chegando sem lágrimas, não vale a pena chorar pelas vidas bem vividas. Queria que um grupo de amigas velhas, cansadas, iguais, todas vestindo azul, alugasse um ônibus para virem se despedir de mim e cantassem minha canção favorita em vozes enrugadas...E que outras, usando chapéus roxos, fizessem uma oração, pedindo para a Grande-Mãe me acolher no seu colo...Gostaria que algumas pessoas improváveis, como as noras e os netos adolescentes, imaginassem que poderiam sentir saudades minhas, são tão difíceis e tão valiosos esses encontros! Queria que entre parentes e amigos ninguém conseguisse distinguir traços nem parecenças, o amor cria as verdadeiras afinidades. Queria que, no momento em que o carrinho saísse com as flores e o caixão, alguém risse lembrando de alguma bobagem que eu falei, algum esquecimento, um lapso, uma queda, qualquer uma das minúcias que afirmam nossa humanidade. Mesmo banhado de sol, gostaria que meu túmulo fosse à sombra de uma árvore e que os casais se aproximassem dele de mãos dadas, a morte, afinal, é a oportunidade que Deus nos dá de fazer o exercício da grande reconciliação. Quero acreditar, como os hindus, que a terra úmida cobriria meu corpo e que em breve, muito breve, eu me transformaria talvez num pássaro e comungaria mais uma vez da benção do Universo. E, cá para nós, e ao contrário do que andei dizendo por aí a vida inteira, queria muito morrer assim num instante, naquele único instante verdadeiramente nosso, entre o passado e o futuro, com dizia Hannah Arendt...Morrer...mas com estilo.


