sábado, 10 de julho de 2010

Do Alto…

 

“Do alto.

Um metro e sessenta e três e meio. Essa é a minha medida numa sexta-feira em que acordo cansada. Na segunda, provavelmente terei crescido oito ou dez centímetros. Preciso ser alta umas três ou quatro vezes por semana.

Não me faltam opções. Saltos finos, grossos, redondos, quadrados, retos ou curvos, com ou sem plataforma, sensuais ou clássicos, em modelos abertos ou fechados. O salto alto, sim, é o melhor amigo de uma mulher, já que os diamantes não são para qualquer uma. E os diamantes, ah, os diamantes não deixam nenhuma panturrilha musculosa num piscar de olhos.

Quando acordo me sentindo glamourosa, coloco um salto pra ficar de acordo. Quando acordo exausta, coloco um salto pra levantar o ânimo. Depois de um fora, o salto é perfeito para disfarçar o moral lá embaixo. Distraído com uma perna bem torneada, quem irá notar um coração destruído?

Em cima de um salto, não sou alguém que acorda exausta todas as manhãs, nem a que se preocupa em sortear a conta em atraso do mês. Em cima de um salto, ergo a cabeça e sigo em frente. Não ando: flutuo. Passeio fluida por uma elegante irrealidade, povoando em câmera lenta o imaginário de quem fica.

Não paro para olhar, mas sinto que isso acontece. Por alguns segundos, até fecho os olhos para imaginar as cabeças girando noventa a cento e quarenta e cinco graus em minha direção. Mas logo os abro de novo, pois os saltos podem ser perigosos. E sigo em frente, cabeça erguida, humilhando com charme quem fica para trás. E o que caminha comigo é a fantasia de cada um. Com direito a trilha sonora.

Isso, se eu não cair.

Porque aí a imagem fica mais lenta e merece replay.

Foi o que aconteceu outro dia, quando retornei lânguida e loira à mesa que eu ocupava num restaurante em pleno mall. Eu usava uma inocente sandalinha de salto médio. Mas a tábua corrida e a cera haviam se unido contra mim. E lá se foi a minha sandália patinando pela madeira encerada. E o que virou noventa graus foi meu pé direito, que me levou a deslizar alguns metros, apoiada sobre um tornozelo torto que fazia as vezes de planta do pé. E o movimento em slow motion não foi dos pescoços alheios, mas das minhas pernas se abrindo em desengonço.

Uma cena digna dos programas de fim de domingo.

Em minha memória, aqueles segundos parecem ter durado alguns minutos. Ainda ouço o som das cadeiras pesadas e da mesa que arrastei comigo, numa queda-dominó interminável.

Se foi inesquecível para mim, o que dirá para os outros. Está certo que doeu mais em mim, especificamente na alma, já que o tornozelo ralado e o joelho direito só me levaram a mancar algum tempo depois.

Gosto de me lembrar do momento em que abri de novo os olhos e vi um senhor de cabeça branca, de prontidão, preocupado em verificar quantos e quais tinham sido os estragos. Quando ele finalmente me alcançou – custei a parar –, eu estava como o John Travolta ao final de uma coreografia em "Saturday Night Fever". Com uma diferença: eu usava um vestido tomara-que-caia, cuja saia em lápis subiu até o meio da coxa durante a queda.

Gosto de imaginar cada segundo daquela longa cena. De me lembrar da demora em enxergar alguma coisa e de quando eu finalmente olhei para cima e vi aquele senhor. Gosto de recordar a expressão dele. E me pego com um risinho no canto da boca, a reviver pequenos flashes daquele episódio ridículo que passa a integrar o meu inventário de casos para contar.

Quantos têm a sorte de andar por aí levando sua piada particular, em que se é nada menos que o protagonista? E quem não adoraria ter discretos acessos de riso no meio da rua, como se alguém lhe fizesse cócegas, invisível?

A lembrança do tombo – e as gargalhadas que vêm a reboque – ainda vão me acompanhar por muito tempo.

Demorei a aprender a rir de mim mesma. Vivi uma boa metade da vida sem essa sabedoria.

Quando eu estava começando a levar a vida menos a sério, tive um professor na faculdade que me ensinou a diferença entre humor e ironia. "Uma mulher pobre se veste de rica no carnaval. Isso é humor. Uma mulher rica se veste de pobre no carnaval. Isso é ironia." Nunca me esqueci das palavras do querido Renato de Pinho, que me ensinou muito mais que redação publicitária.

Aparentemente, ninguém riu do meu tombo – seria ironia. Mas eu posso rir à vontade – e me canso de fazer isso. Posso gargalhar até doer a barriga. Mesmo porque me dóem também os joelhos e o tornozelo.

A queda no shopping agora faz parte da minha vasta galeria de casos engraçados, juntando-se à caminhada a pé para Nova Lima, cujos guias se perderam no caminho; à minha primeira viagem de avião, em que a aeronave estragou na primeira escala e passei o resto do trajeto ouvindo meu pai me chamar de pé-frio; ao dia em que saí da garagem dirigindo o Opala 77 da Mamãe e, só alguns quilômetros depois, pude notar em cima do capô um conjunto de prato, pires e xícara que o jardineiro colocou ali depois de lanchar. E por aí vai.

Que me desculpem os que se levam muito a sério: saber usar salto pode ser importante, mas saber cair dele é que é fundamental.

Texto escrito para a edição de junho da Revista Encontro. ”

sábado, 3 de julho de 2010

No teatro da Vida

Eu hoje amanheci inspirada. Olhei pela janela e chovia. Uma garoa fina daquelas que dá vontade de voltar pra cama e dormir de novo. Mas, os deveres me chamam e a cama vai ficar me esperando até mais tarde. Penso na vida como um teatro onde se entra sem direito a ensaio, cada dia é uma peça diferente e ao mesmo tempo igual. De vez em quando aparecem alguns atores diferentes, cada um vivendo seu papel. Algumas cenas usamos mascaras e improvisamos prá não admitir que erramos nossas falas, trocamos nossos papeis. Não temos direito a repley nem voltar atrás e refazer a peça. O teatro tem tempo definido que não nos é permitido saber quando as cortinas vão se fechar. A platéia explode com nossas falhas, do mesmo modo que chora e ri de nossos corações aflitos, acelerados pelo medo do palco da nossa vida. As vezes pisamos devagar na arena do nosso destino, outras vezes pisamos com força, altivez e coragem disfarçados com a mascara da hipocresia para agradar aos menos preparados. Na verdade, somos todos estreantes dessa mesma estória, somos todos personagens da mesma peça do teatro. Eu, você, todos somos as marionetes desse drama vivo que se repete todos os dias, apenas mudamos os nomes dos personagens e na roda da vida todos somos iguais, as mascaras é que diferem seja nos dramas seja nas comédias, vivemos uma mentira coletiva. E, vamos levando nosso dia a dia antes que as cortinas do tempo de cada um se feche para sempre!!!!!!!!!!